Música clássica sem casaca. Mas sem educação?

Palco do Theatro Municipal
de SP. Foto: Sheila Maceira

Manhã de domingo, concerto interessante na agenda da Temporada 2013 do Theatro Municipal de São Paulo. Mozart e Bruckner desafiando a regência do grande Jamil Maluf e sua Orquestra Experimental de Repertório. A imensa fila na bilheteria do Theatro a menos de 10 minutos do início do concerto evidencia o apelo popular do prodígio de Salzburg muito embora o seu Concerto para Piano Nr 23 em Lá maior (KV. 488) não soe para mim como um dos carros-chefe de tamanha popularidade. Me explico: a obra em questão evoca muito mais sombras e contemplação do que a alegria e leveza típicas de outros concertos para piano do mestre.

Seja como for, a imensa fila também denuncia, para olhos mais atentos, uma certa falha na oferta de serviços da bilheteria do teatro: fila única e apenas uma cabine para venda de ingressos. Para quem opta por não pagar pela conveniência do ingresso via internet, talvez a medida da inconveniência esteja um pouco além do razoável em se tratando de um teatro municipal. Apenas mais um, na montanha de desafios a vencer pela gestão Herencia/Neschling.

Conseguir acessar e me acomodar nos assentos escolhidos foi a próxima batalha inglória. Para minha surpresa, praticamente TODAS as pessoas que ocupavam as cadeiras da plateia no entorno do meu lugar estavam fora de seus assentos comprados. Imagine o tumulto que isso gera para realocação num teatro de fileiras longas e estreitas, e a poucos minutos do início do concerto.

A próxima surpresa se revelou logo na sequência do início do concerto: nada menos do que 3 bebês na plateia. Sim, eu disse bebês – um deles bastante incomodado no colo da mãe na primeira fileira do teatro, bem em frente ao spalla (!). A Sala São Paulo recomenda idade mínima de 7 anos mas aparentemente o Theatro Municipal não compartilha do mesmo entendimento. Desnecessário comentar sobre as consequências de tal situação. Durante o intervalo, perguntei a uma das funcionárias sobre a política da casa para esta questão e ela me respondeu que bebês não são permitidos dentro da sala de concerto. Sinalizei que haviam pelo menos 3 naquela manhã e ela se limitou a repetir a regra. Não que eu esperasse uma atitude muito diferente do que esta num país que ocupa o penúltimo lugar no ranking da educação mundial.

Incontáveis foram ainda os incômodos e broncas direcionadas a pessoas na plateia fotografando, filmando, acessando seus relógios (com som), conversando e comendo. A obra de Bruckner, ao contrário do popular gênio austríaco, não é exatamente daquelas que se podem considerar de fácil consumo. E Jamil Maluf gentilmente conversou e explicou isso ao público presente antes do início da execução da Sinfonia Nr 6 em Lá maior do também austríaco Bruckner.

Me senti especialmente honrada de poder ouvir a obra em versão integral – coisa que o próprio compositor não chegou a fazer em seu tempo de vida, já que em sua estreia em Viena, em 1883, foram executadas apenas seus segundo e terceiro movimentos.

Confesso que, no meio do concerto, me peguei pensando sobre a discussão sempre difícil de convergir gregos e troianos, a respeito da “modernização” do ritual existente para ouvir música nas salas de concerto. Pensei nos que defendem maior flexibilidade, menor rigor formal e algumas outras sugestões até bem intencionadas e fundamentadas.

Mas igualmente pensei que esta discussão é irrelevante quando não se tem ao menos um pré-requisito fundamental: educação para se engajar no espetáculo de forma a participar sem perturbar. Pensei nas experiências que tive como plateia na Filarmônica de Berlin e no Barbican Hall, no Musikverein de Viena e no Metropolitan de Nova York – e mesmo por aqui no Cultura Artística e Mozarteum. Em geral, salas muito maiores do que a do Municipal de São Paulo, onde minha experiência pessoal de apreciação, mesmo quando com lotação completa, tem sido incomparavelmente melhor do ponto de vista de interação público/orquestra. Podemos até insistir na verborragia associada à tal música clássica sem casaca. Mas sem educação, a discussão parece não fazer sentido algum.

Serviço:
Orquestra Experimental de Repertório
Regente: Jamil Maluf
Piano solista: José Feghali
Programa:
W. A. Mozart: Abertura da Ópera “O Rapto do Serralho”, KV. 384
W.A. Mozart: Concerto para Piano e Orquestra Nr 23 em Lá maior, KV. 488
Anton Bruckner: Sinfonia Nt 6 em Lá maior
Ingressos: R$20 a R$60 na Bilheteria do Theatro ou através da www.ingresso.com.br/prefeitura


Programação completa do Theatro Municipal de São Paulo disponível aqui.
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Anderszewski: a volta do viajante intranquilo

A agenda de concertos da Temporada 2013 da Sociedade de Cultura Artística é mais uma pérola para a coleção da direção artística impecável que marca as temporadas da casa. Com intérpretes de grande expressão em sua programação, particularmente me encantei com o retorno do pianista polonês Piotr Anderszewski logo mais em julho.

Celebrado também aqui no LesAmis, em outubro de 2010 ganhou espaço num post que escrevi por ocasião da chegada de um dos filmes mais vistos da minha biblioteca particular: o Unquiet Traveler, documentário dirigido pelo francês Bruno Monsaingeon.

Serão dois concertos – 29 e 31 de julho de 2013 – com programa ainda em aberto e ingressos à venda a partir de 1 de julho. Se tiver interesse, um conselho: marque esta data em sua agenda e se programe para fazer a compra o mais rápido possível porque as apresentações dele costumam esgotar logo.

Aproveito aqui ainda a oportunidade para deixar uma preciosidade: um video do Anderszewski executando a peça que o fez notável em primeira mão, as Variações Diabelli de Beethoven (não o incorporo aqui no post porque o conteúdo é restrito para exibição no Youtube).

E aproveito também para compartilhar uma reflexão de Anderszewski sobre Brahms, contida no filme, e que em muito ajuda a entender a personalidade e atitude do próprio pianista polonês. Enjoy!

“The problem with Brahms is that you feel that he is already an interpreter himself – the interpreter of Bach, of Beethoven. Brahms is this purely masculine music, patriarcal. It’s the music of iron resolve, of power of wood. A genious in his own way. It is music written by a young man who is already old. And Brahms remains a citadel, a citadel of classicism, of counterpoint, of precision. All the values that are close to my heart. When you love, you love the weaknesses and is touched by weaknesses. With Brahms there aren’t many weaknesses. In fact, he is a perfect composer. It is that determination to be perfect that bothers me and perhaps I thought a lot about this. The thing that bothers me is that I think I am a bit like that myself.” (Piotr Anderszewski)

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Um Theatro Municipal para uma cidade como São Paulo

OSM e o regente convidado
Jader Bignamini.
Foto: Sheila Maceira

Manhã de domingo, boas opções em música de concerto para o ouvinte paulistano, escolho ver a Orquestra Sinfônica Municipal, que tem na agenda um programa interessante e longe do lugar comum – me desculpem a sinceridade – comparativamente com os demais.

Confirmada a disponibilidade de ingressos – algo raro no dia do evento em outras salas de concerto da cidade – e vencida a dificuldade de chegar ao Theatro que aos domingos agora tem acesso interditado em função das ciclofaixas (ainda que não tenha visto um único ciclista no trajeto desde a Biblioteca Municipal Mário de Andrade), felizmente teve início uma série de gratas surpresas.

Primeiro, o programa do concerto. E aqui não me refiro às obras senão que à forma: formato, qualidade gráfica e de conteúdo, comparáveis com os programas da OSESP. Primeiro e inconfundível sinal da administração John Neschling.

Detalhe do vitral da porta de
acesso às varandas externas
do Theatro Municipal de São
Paulo. Foto: Sheila Maceira

Depois, o programa do concerto: e agora sim me referindo ao conteúdo. Duas obras do compositor musicólogo italiano Ottorino Respighi, cuja produção curiosamente tive o prazer de conhecer há alguns anos justamente com a OSESP do John Neschling, na época seu Diretor Artístico, que executou brilhantemente a bela obra sinfônica I Pini di Roma. Na sequência do programa, a belíssima Scheherazade (Op. 35) do compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov, de quem Respighi por sinal foi aluno.

Uma grata surpresa à parte foi a regência leve, precisa e muito carismática do maestro italiano Jader Bignamini, que mais parecia um local, dado o nível de entrosamento com a OSM e com o público. Com um currículo brilhante, o italiano deu um toque especial na execução da obra de seu conterrâneo.

A agenda 2013 do Theatro Municipal de São Paulo está recheada de bons programas, com grandes nomes entre os intérpretes e regentes convidados, além da OSM, OER e Coral Lírico da cidade.
Vale a pena conferir e prestigiar. Finalmente, parece que aos poucos nós paulistanos e todos que por aqui circulam, vão ganhando de volta um Theatro Municipal à altura de uma cidade como São Paulo.

Serviço:
Orquestra Sinfônica Municipal
Regente: Jader Bignamini
Programa:
O. Respighi: Suite do balé “La boutique fantasque” Op. 120
O. Respighi: “Fontane di Roma”
N. Rimsky-Korsakov: “Scheherazade”, op. 35
Ingressos: R$20 a R$60 na Bilheteria do Theatro ou através da www.ingresso.com.br/prefeitura


Programação completa do Theatro Municipal de São Paulo disponível aqui.
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