violão no MASP neste sábado…

Sob a coordenação artística do violonista Henrique Pinto, o Projeto Violão no MASP traz neste sábado mais um evento da programação 2009. No programa, o violonista Rodrigo Gonçalves, e o duo Marcus Llerena (violão) e Rosenete Eberhardt (canto). O evento se inicia às 16:00 do sábado 3/Out, com ingressos a R$10 e R$5 (estudantes).

Rodrigo Gonçalves
Programa

  • J. S. Bach BWV 1007 Suíte – Prelude
  • Fernando Sor Study n. 9 – Op. 31, n. 7 – Op. 31, n. 20 – Op. 29
  • Frank Martin Quatre Pieces Breves – Prelude, Air, Plainte, Comme une Gigue
  • F. M. Torroba Pieces Caracteristiques – Preâmbulo, Oliveiras, Panorama

Duo: Marcus Llerena (violão) – Rosenete Eberhardt (canto)
Programa

  • G. F. Händel Lascia Ch`io Pianga
  • Mauro Giuliani Op 95Di Due Bell`Anime
  • G. G. Carissimi Vittoria, Mio Core !
  • Fernando Sor Op 15 N°2 Sonata
  • W. A. Mozart Warnung KV 433 (416c)
  • F. Schubert Der Lindenbaum Albúm I 67
  • J. Brahms Sonntag Op 47 n° 3, Feinsliebchen
  • H. Villa Lobos Evocação, Na Paz do Outono
  • Georges Bizet Habanera (ópera Carmen)
  • Nicanor Teixeira Eu Vou Me Amaziá
  • C.Gonzaga O Corta Jaca
  • F. Viana Toada N° 1
  • Marlos Nobre Dengues da Mulata Desinteressada
  • W.Henrique TambaTajá, Uirapuru
  • H. Villa Lobos Caicó, Trezinho do Caipira
Help us spread the word:

quando o violão encontra a orquestra

noite de sábado, encerramento da temporada paulista da programação da orquestra sinfônica brasileira, sob a batuta de seu regente e diretor artístico roberto minczuk, em grande estilo: com a estréia mundial da Fantasia para Violão de Sete Cordas e Orquestra, tendo como solista um grande nome do violão brasileiro, yamandú costa.

composta por yamandú em co-autoria com paulo aragão, a peça de considerável dificuldade técnica foi precisamente executada pelo solista. lembrando que o violão conta ainda nos dias de hoje com um certo distanciamento das salas de concerto na medida em que o repertório para violão e orquestra é relativamente restrito, a escolha para ocasião tão especial na agenda da OSB é digna de nota. assim como não poderia deixar de mencionar a presença sempre muito bem-vinda de outro brilhante violonista brasileiro, fabio zanon, que do coro da sala são paulo, apreciou não apenas esta estréia, mas toda a programação da noite.

curiosamente, no momento do bis, ficou mais do que cristinalina a distinção entre o yamandú solista da peça para violão e orquestra, e o yamandú violonista cujo estilo peculiar é conhecido e reconhecido, do grande público aos ouvidos mais atentos – aquele mesmo estilo que faz dele o “paganini do violão“, nas palavras do ilustre maestro kurt mazur. numa colagem musical recheada de interpretação original e da irreverência que lhe é marcante, yamandú fez do bis um espetáculo à parte, arrancando acalourados gritos de bravo, da sala lotada.

e para terminar, como confessa grande apreciadora do violão que sempre fui, deixo meus cumprimentos à OSB e ao maestro roberto minczuk, pela iniciativa de promover a inclusão do instrumento em nossa cena musical das salas de concerto e pela prova de que ainda há muito espaço e muito o que se compor, executar e experimentar nesta inclusão!

Help us spread the word:

duas versões de zita

… uma graciosa, resultante da interpretação de um duo de violões – o famoso duo assadi – com um violoncelo – pilotado por ninguém menos que yo-yo ma…

… outra enérgica, viva, brilhante, na interpretação do Brasil Guitar Duo

é um mundo de possibilidades… qual teria emocionado mais piazzolla?
aproveitem! 🙂

Help us spread the word:

helena meirelles

Ganhei hoje do augusto um presentinho perfeito: na verdade, quatro… dois CDs da brasileira violonista helena meirelles, e mais dois do violoncelista holandês yo-yo ma. Vou falar sobre o trabalho do violoncelista num próximo post, porque apesar de seu talento, todos os meus sentidos hoje ficaram vidrados na grata surpresa da descoberta do trabalho excelente da helena.

Seu primeiro CD, chamado helena meirelles, traz no encarte um relato impressionante do que foi a vida desta brasileira, nascida no Mato Grosso do Sul dos anos 20. Fiquei tão feliz com o que li, que decidi compartilhar alguns trechos com vocês por aqui… espero que gostem! 🙂

* * *
A vida repleta de fatos insólitos da instrumentista helena meirelles tem início numa data que em si já denota um estigma: uma sexta-feira 13, do mês de agosto de 1924, na fazenda Jararaca, na antiga estrada boiadeira que, acompanhando o rio Pardo, ligava Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, ao Porto 15, embarcadouro de gado às margens do rio Paraná, na divisa com o estado de São Paulo.

Helena cresce em meio aos gritos dos peões e à poeira das constantes comitivas boiadeiras, procedentes do Pantanal e outras regiões do Mato Grosso antigo e bravio, numa época em que nem mesmo se cogitava dividir o estado. O avô materno, um paraguaio bondoso e hospitaleiro, dono de Jararaca, acolhia na fazenda muitos dos passantes, entre eles patrícios seus, alguns dos quais exímios violonistas e violeiros e à noite, em meio às intermináveis rodadas do tereré, o chimarrão frio de matogrossenses e paraguaios, ouvia-se o tinir dos instrumentos na execução dos ritmos do Oeste, notadamente o rasqueado e a polca.

Encantada pelo som da música, a pequena Helena observava de longe, proibida que era de acercar-se desse mundo reservado apenas aos homens. Mulher que aprende a tocar vai roçar nos homens e virar sem-vergonha, advertiam os pais ao se aperceberem do fascínio dos instrumentos na guria, ameçando cortar-lhe os dedos e dar-lhe uma surra de lavar o lombo com salmoura, caso insistisse. Tocarei mesmo com os tocos, retrucava a precoce rebelde. Para deleite de Helena, o tio Leôncio Meirelles e o irmão mais velho Álvaro Pereira, grandes violonistas, também se apraziam das tórridas noites dedilhando seus pinhos. Os ouvidos atentos e os olhos sequiosos da menina gravaram os sons e as posições de afinação paraguaçú, empregada nos solos, e da clássica, utilizada nos acompanhamentos. Quando a família se dirigia para o campo ou para a roça, Helena retirava o violão que o irmão pendurava no telhado e se escondia no mandiocal, tocando sozinha. A um velho instrumento presenteado por um paraguaio adaptava linhas de costura, que fingia serem cordas verdadeiras.

Corria o ano de 1932. Leôncio foi tomado de surpresa quando, num momento em que dedilhava o violão, a sobrinha pediu para acompanhá-lo. Vá buscar o violão, mas se não conseguir você vai apanhar. Atônito, o tio não só viu Helena dominar com destreza o ritmo da polca que ele solava, como também observou incrédulo, a menina afinar por si própria o violão na paraguaçú, passando a acompanhá-lo quando ela se pôs a solar a mesma música que ele acabara de tocar. Desde então, muitos boiadeiros paravam na fazenda para ver a menina, que solava como gente grande e que aos 9 anos animava bailes e festas na Jararaca e nas fazendas vizinhas, ao lado de Leôncio e do irmão Álvaro.

Os anos passaram, Helena nunca foi à escola, casou-se aos 17 anos, 3 filhos, o marido tentou impedí-la de tocar e dançar: ela queria ser livre e os abandonou aos 21. Juntou-se a um paraguaio, que tocava violão e violino, bom companheiro de música e de copo, 8 anos de convivência, mais 2 filhos e nova separação. Então já mascava fumo e bebia. Sua índole rebelde não permitiu que tolerasse as críticas da família ao seu estilo de vida. Entregou os filhos a pais adotivos e passou a tocar em bares e viver em bordéis, onde com seu violão animava a farra da boiaderama. No processo, diversos amantes e novos filhos, que chegariam a um total de 11.

Um dia, chegou ao bordel do Porto 15 um peão pantaneiro, domador de burros bravos. Segundo Helena, dormiu com ele, Constantino, naquela noite e nele está ancorada há 35 anos, seu terceiro marido. Juntos seguiram para o Pantanal, onde trabalharam em retiros em dezenas de fazendas nas áreas mais remotas da região. Aquietou-se Helena, no acalanto da natureza pantaneira, sertão bruto onde à noite a onça pintada espreitava seu rancho. Mulher decidida, foi parteira – fez sozinha inclusive seus próprios partos – e benzedeira. Também foi lavadeira e cozinheira nas fazendas. Após 40 anos, deixou de mascar fumo e abandonou a bebida, mas jamais aposentou o violão, que tocava nas festas locais.

Após 32 anos desaparecida da família, que acreditava ter ela sido assassinada por um peão despeitado, na zona do Porto 15, Helena Meirelles ressurge na pequena Piquerobí, cidade paulista próxima à divisa com Mato Grosso do Sul. Encontrada pela irmã Natália, a artista vinda de Aquidauana, tentava chegar a São Paulo, onde ouvira dizer, parte da família se estabelecera há 3 décadas. Doente e muito pobre, conservava ainda a destreza instrumental e grande parte do inesgotável e precioso repertório de pérolas do cancioneiro regionalista que levava valentes boiadeiros a derramarem lágrimas de tristeza ou darem tiros de alegria.

A artista enfrentou uma câmera de televisão e subiu ao palco de um teatro pela primeira vez aos 68 anos. Durante as quase 7 décadas de ostracismo, sua platéia havia sido os privilegiados habitantes de Jararaca e fazendas vizinhas, os peões da velha estrada boiadeira, os frequentadores e operárias da zona de meretrício e botecos de diversas cidadezinhas sulmatogrossenses, além dos boiadeiros do Pantanal.

(texto de Mário de Araújo, integrante do encarte do CD Helena Meirelles, gravadora Eldorado)
* * *
Nascimento – Morte
13 de agosto de 1924 – 28 de setembro de 2005

Prêmios
1993: Spotlight Artists (Revelação) da Revista Guitar Player. Nesta ocasião foi eleita uma das 100 melhores instrumentistas do mundo (com voto de Eric Clapton)

Instrumentos
violão de 6, 8, 10 e 12 cordas
rabeca
bandolim

Discografia
1994 – Helena Meirelles
1996 – Flor de guavira
1997 – Raiz pantaneira
2002 – Helena Meirelles ao vivo
2003 – De volta ao Pantanal
2004 – Os bambas da viola

Filme
Helena Meirelles – A Dama da Viola
Brasil, 2004. 75 minutos

Help us spread the word: