expressão visual da música

explorando um pouco mais sobre a linha tênue que demarca a fronteira entre música e outras formas de arte, deparei-me com um trabalho muito interessante realizado pelo pintor novaiorquino phillip schreibman, que há mais de 45 anos representa sobre telas brancas a expressão visual da experiência musical. confesso que achei que ele viaja um pouco quando busca conexão de temas como sinestesia, formas de Rembrandt e abordagens de tempos horizontais, perpendiculares e óticos, no intuito de suportar sua proposição como artista.

seja como for, as obras são particularmente curiosas, merecendo no mínimo o benefício da dúvida…

beethoven (1770 – 1827)

sinfonia #3, “eroica”, opus 155

para quem quiser conferir, tem outras disponíveis aqui. divirtam-se! 🙂

helena meirelles

Ganhei hoje do augusto um presentinho perfeito: na verdade, quatro… dois CDs da brasileira violonista helena meirelles, e mais dois do violoncelista holandês yo-yo ma. Vou falar sobre o trabalho do violoncelista num próximo post, porque apesar de seu talento, todos os meus sentidos hoje ficaram vidrados na grata surpresa da descoberta do trabalho excelente da helena.

Seu primeiro CD, chamado helena meirelles, traz no encarte um relato impressionante do que foi a vida desta brasileira, nascida no Mato Grosso do Sul dos anos 20. Fiquei tão feliz com o que li, que decidi compartilhar alguns trechos com vocês por aqui… espero que gostem! 🙂

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A vida repleta de fatos insólitos da instrumentista helena meirelles tem início numa data que em si já denota um estigma: uma sexta-feira 13, do mês de agosto de 1924, na fazenda Jararaca, na antiga estrada boiadeira que, acompanhando o rio Pardo, ligava Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, ao Porto 15, embarcadouro de gado às margens do rio Paraná, na divisa com o estado de São Paulo.

Helena cresce em meio aos gritos dos peões e à poeira das constantes comitivas boiadeiras, procedentes do Pantanal e outras regiões do Mato Grosso antigo e bravio, numa época em que nem mesmo se cogitava dividir o estado. O avô materno, um paraguaio bondoso e hospitaleiro, dono de Jararaca, acolhia na fazenda muitos dos passantes, entre eles patrícios seus, alguns dos quais exímios violonistas e violeiros e à noite, em meio às intermináveis rodadas do tereré, o chimarrão frio de matogrossenses e paraguaios, ouvia-se o tinir dos instrumentos na execução dos ritmos do Oeste, notadamente o rasqueado e a polca.

Encantada pelo som da música, a pequena Helena observava de longe, proibida que era de acercar-se desse mundo reservado apenas aos homens. Mulher que aprende a tocar vai roçar nos homens e virar sem-vergonha, advertiam os pais ao se aperceberem do fascínio dos instrumentos na guria, ameçando cortar-lhe os dedos e dar-lhe uma surra de lavar o lombo com salmoura, caso insistisse. Tocarei mesmo com os tocos, retrucava a precoce rebelde. Para deleite de Helena, o tio Leôncio Meirelles e o irmão mais velho Álvaro Pereira, grandes violonistas, também se apraziam das tórridas noites dedilhando seus pinhos. Os ouvidos atentos e os olhos sequiosos da menina gravaram os sons e as posições de afinação paraguaçú, empregada nos solos, e da clássica, utilizada nos acompanhamentos. Quando a família se dirigia para o campo ou para a roça, Helena retirava o violão que o irmão pendurava no telhado e se escondia no mandiocal, tocando sozinha. A um velho instrumento presenteado por um paraguaio adaptava linhas de costura, que fingia serem cordas verdadeiras.

Corria o ano de 1932. Leôncio foi tomado de surpresa quando, num momento em que dedilhava o violão, a sobrinha pediu para acompanhá-lo. Vá buscar o violão, mas se não conseguir você vai apanhar. Atônito, o tio não só viu Helena dominar com destreza o ritmo da polca que ele solava, como também observou incrédulo, a menina afinar por si própria o violão na paraguaçú, passando a acompanhá-lo quando ela se pôs a solar a mesma música que ele acabara de tocar. Desde então, muitos boiadeiros paravam na fazenda para ver a menina, que solava como gente grande e que aos 9 anos animava bailes e festas na Jararaca e nas fazendas vizinhas, ao lado de Leôncio e do irmão Álvaro.

Os anos passaram, Helena nunca foi à escola, casou-se aos 17 anos, 3 filhos, o marido tentou impedí-la de tocar e dançar: ela queria ser livre e os abandonou aos 21. Juntou-se a um paraguaio, que tocava violão e violino, bom companheiro de música e de copo, 8 anos de convivência, mais 2 filhos e nova separação. Então já mascava fumo e bebia. Sua índole rebelde não permitiu que tolerasse as críticas da família ao seu estilo de vida. Entregou os filhos a pais adotivos e passou a tocar em bares e viver em bordéis, onde com seu violão animava a farra da boiaderama. No processo, diversos amantes e novos filhos, que chegariam a um total de 11.

Um dia, chegou ao bordel do Porto 15 um peão pantaneiro, domador de burros bravos. Segundo Helena, dormiu com ele, Constantino, naquela noite e nele está ancorada há 35 anos, seu terceiro marido. Juntos seguiram para o Pantanal, onde trabalharam em retiros em dezenas de fazendas nas áreas mais remotas da região. Aquietou-se Helena, no acalanto da natureza pantaneira, sertão bruto onde à noite a onça pintada espreitava seu rancho. Mulher decidida, foi parteira – fez sozinha inclusive seus próprios partos – e benzedeira. Também foi lavadeira e cozinheira nas fazendas. Após 40 anos, deixou de mascar fumo e abandonou a bebida, mas jamais aposentou o violão, que tocava nas festas locais.

Após 32 anos desaparecida da família, que acreditava ter ela sido assassinada por um peão despeitado, na zona do Porto 15, Helena Meirelles ressurge na pequena Piquerobí, cidade paulista próxima à divisa com Mato Grosso do Sul. Encontrada pela irmã Natália, a artista vinda de Aquidauana, tentava chegar a São Paulo, onde ouvira dizer, parte da família se estabelecera há 3 décadas. Doente e muito pobre, conservava ainda a destreza instrumental e grande parte do inesgotável e precioso repertório de pérolas do cancioneiro regionalista que levava valentes boiadeiros a derramarem lágrimas de tristeza ou darem tiros de alegria.

A artista enfrentou uma câmera de televisão e subiu ao palco de um teatro pela primeira vez aos 68 anos. Durante as quase 7 décadas de ostracismo, sua platéia havia sido os privilegiados habitantes de Jararaca e fazendas vizinhas, os peões da velha estrada boiadeira, os frequentadores e operárias da zona de meretrício e botecos de diversas cidadezinhas sulmatogrossenses, além dos boiadeiros do Pantanal.

(texto de Mário de Araújo, integrante do encarte do CD Helena Meirelles, gravadora Eldorado)
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Nascimento – Morte
13 de agosto de 1924 – 28 de setembro de 2005

Prêmios
1993: Spotlight Artists (Revelação) da Revista Guitar Player. Nesta ocasião foi eleita uma das 100 melhores instrumentistas do mundo (com voto de Eric Clapton)

Instrumentos
violão de 6, 8, 10 e 12 cordas
rabeca
bandolim

Discografia
1994 – Helena Meirelles
1996 – Flor de guavira
1997 – Raiz pantaneira
2002 – Helena Meirelles ao vivo
2003 – De volta ao Pantanal
2004 – Os bambas da viola

Filme
Helena Meirelles – A Dama da Viola
Brasil, 2004. 75 minutos

webradio clubs

atendendo a pedidos, publico aqui em post único um pouco mais sobre minhas atuais descobertas na web quando o assunto é genoma musical e webradio. vamos a elas…

  • radio blog club. de longe o brinquedinho mais legal em serviços de webradio que descobri recentemente. é especialmente fácil para navegar, criar playlists e montar seus próprios juke boxes e cria rapidamente e sem complicação o código necessário para que você possa disponibilizar diretamente no seu blog o player já configurado para tocar (ou playlist) a música que você escolher.
  • pandora. o pandora está mais para a categoria genoma musical. a partir da canção ou artista de sua preferência, o site te apresenta várias outras similares, seguindo um complexo sistema de atributos. e você ainda pode interagir, expressando sua opinião acerca destas sugestões automáticas. por estas características não é o melhor lugar do mundo quando se está interessado em ouvir aquela determinada música, mas vale quando se está aberto para conhecer outros artistas/canções com potencial de agradar seu gosto musical. tem repertório bastante restrito quando o assunto é clássicos e world music.
  • musicovery. genuinamente uma webradio, o musicovery bastante fácil de operar, e aqui se determina o ponto de partida não por um artista/canção mas estilo/humor. determinado este ponto, a sequência segue a abordagem de genoma musical como no pandora, com a diferença que aqui não é possível expressar opinião.

e já que estamos falando sobre isso, compartilho abaixo uma bela canção francesa que “descobri” justamente numa dessas explorações curiosas pelo mundo das webradios…

Voila! 🙂

take 6 em são paulo

a primeira boa do ano: take 6 em são paulo, no credicard hall, em 3/fev (sábado). na estrada desde o finzinho da década de 80, quem já participou de grupos vocais (corais, madrigais e afins) dificilmente nunca ouviu falar deste pessoal. com repertório variado embora basicamente centrado nas fronteiras do gospel, creio que a música mais famosa é esta aqui: the biggest part of me. os integrantes do grupo são pessoas muito interessantes, além de fazerem a maior propaganda do brasil mundo afora… 🙂

cliente citibank tem exclusividade de compra de ingressos até 16/jan. se alguém quiser, é só avisar que eu compro. vamos ao show?

prelude

… a música na minha vida tem lugar sagrado, certeiro e de grandes dimensões. não sei bem ao certo onde foi que tudo começou, mas sei que foi muito cedo. lembro de uma época em que não existia mp3 – nem mesmo CDs – e éramos felizes, eu e o meu irmão, o mês todo aguardando pelo último domingo, dia de comprar na banca de jornais um novo exemplar da coleção de mpb da abril cultural. eram LPs, com encartes bacanas, biografia, fotos, discografia, e letras das músicas – parte substancial da motivação para aprender a ler e rápido! 🙂

… dos encartes de mpb aos booklets de óperas foi um passo: literalmente um pas de bourré, movimento de aquecimento dos adagios em 4×4, quinta posição, parte da agenda diária de treino da pequena bailarina. do ballet ao jazz, passando pelo clássico, moderno e folclórico, e no passo desta exploração do mundo da dança, um outro mundo a explorar no campo da música de concerto.

… a aptidão para o ballet foi infelizmente perdendo força à medida que se tornavam mais freqüentes as lesões musculares, mas a paixão pela música… esta sim, só fez crescer e contagiar! de bailarina promissora acabei caloura na faculdade de engenharia… mas sem nunca ter deixado para trás o lado musical da vida… violão erudito a postos e, voilà! afinal, é de tríades e dissonâncias, supertônicas e pianíssimos que o meu território é constituído! e do violão ao piano, minha última e mais duradoura paixão absoluta. para ser explorado, mas particularmente compartilhado com amigos.

Território de amigos da música. Seja muito bem-vindo! 🙂